sábado, 10 de novembro de 2007

voar sem mim

Quase não reconheço quem sou… vejo o corpo, sem o reconhecer. Vejo o corpo dela…

Ela está ali, deitada num sofá demasiado pequeno para alguém, mesmo pequenino como ela, poder estar confortável. Parece um autêntico exercício de flexibilidade e resistência, estar tanto tempo quieta naquela posição. Talvez não, porque ela esta ali, sem expressão, sem qualquer sinal de nadas: apenas está. Escreve… rascunha qualquer coisa… ás vezes pára para ler o que já escreveu: só sei que escreve porque vejo a caneta flutuar sobre o papel, sem dar sinais do que faz. Quem escreve ri, franze as sobrancelhas, quem escreve, escreve porque sente. Mas ela não dá sinais de sentir. Quando pára, bebe um gole de chá, de uma chávena grande que faz lembrar uma louça de hospital, fria… no entanto, ela parece saborear cada indistinguível sabor de um tão delicado cházinho: sorri, feliz por conseguir desvendar um prazer tão grandioso de um tão minúsculo momento: aquele líquido quentinho reconforta-lhe a alma.
Provavelmente já sofreu, mas é orgulhosa de mais para demonstrar ao mundo que é humana: ela é uma poetiza! Se não o fosse, como podia dar tanto valor a uma simples bebida, algo que passaria despercebido ao homem, algo tão puro como o seu chá? Ninguém saboreia assim, ninguém sabe aproveitar assim um momento: a não ser que seja um poeta. E ser poeta é ser maior que os homens. Só os poetas dão tanto valor ás pequenas coisas… consigo perceber que gosta de escrever. Tem uma boa caneta, e a sua mão rodopia em movimentos perfeitos. Ela deve ter um grande bloco amarelo, queimado pelo tempo, e uma pena e um tinteiro. Sim, ela gosta desse romantismo mas só na sua arte: e demasiado fria e insensível para qualquer romantismo desapropriado e não artístico: mas a sua arte tem que ser perfeita: tal como ela. Ela risca, volta a escrever, lê e relê, até estar perfeito. Só quando esta perfeito se dedica ao próximo paragrafo, porque ela dá demasiado valor aos pormenores. Ela é única!
Diz que não é ninguém, a quem pergunta quem é ela. E não! Ela não é normal: ela é mais! Ela é a Ana! Não deve assinar a sua arte com o seu nome: Ana Margarida e demasiado banal para algo que tem tanta importância na sua vida! Será que ela é alguém? Ou será que É apenas? Não sei, não consigo distingui-la. Mas não me parece infeliz. Quem e infeliz não sorri quando sabe que a sua alma esta a descreve-la, a avalia-la, a grita-la ao mundo. Ela, alias, sorri quando me viu. Tem o sorriso mais puro que já vi, mas eu sou o seu espírito, sei exactamente que aquele sorriso e só meu. O mundo não sabe avaliar os seus sorrisos. Ela é tão complexa!
Está serena. Brinca com os seus pés, esticando-os como se ainda soubesse fazer pontas. Recorda os tempos que voava numas sapatilhas cor-de-rosa, ao som de Mozart. Relembra os tempos em que foi bailarina: e sente tantas saudades de voar: foi a sua primeira expressão de dor desde que a observo. A saudade. Ela de certeza já voou. Já foi grande. Agora não. Não tem medo do que os outros pensem dela. Ela e única, sabe-o. Não se importa de passar má imagem: já se cansou de ser o que não é. Não se importa que os outros atrofiem: sempre foi incompreendida e censurada. Não dispensa a companhia da sua gatinha: ela sempre aconchegou os seus pés na cama, e ouve-a. A sua companhia, o seu animal de estimação ouve os seus problemas, os seus poemas, as suas lágrimas e os seus risos. E nunca a abandona. Nunca protestou. E não a julga. A não ser quando assobia: a gatinha não gosta que ela assobie. Ou quando ela canta. Devia cantar bem, afinal é uma poetisa, e todas as poetisas cantam bem. Mas ela não é comum, nem no mundo dos poetas: não obedece a nada. E canta mesmo mal. Só canta sozinha, ou muito baixinho ao ouvido de quem ama. Sim porque ela já amou. Aliás ela ama. Sorri quando ele assola os seus pensamentos, quando, sem razão, cai de pára-quedas num raciocínio que nada tem a ver com o amor. Ela gosta disso, porque sabe que sentir é importante para ser alguém. Ainda que ela não seja ninguém. Se não amá-se não se conhecia a si própria. E não conseguia sair da sua realidade para testar uma perspectiva que não a dela sobre si mesma. Sabe que é a pessoa mais importante para ele. Sabe que ele a ama, em silêncio, sabe que ele a abraça quando ela tem medo, quando está triste, sabe que é dele: e precisa dessa segurança de amar. Precisa de saber que é dele, porque ser sua dói. A gata enrosca-se mais no seu colo e ronrona, o que a faz rir. Ela faz-lhe uma festa, com muita calma. Penso que aquela gata é o único ser que a consegue tirar do transe em que ela mergulha nestes momentos místicos: a luz do fogo que crepita na lareira ilumina-lhe a face e ela torna-se mais mística que nunca. Ela e ela, e é sem medos: afinal, ela e uma poetisa.
Esta a pensar em si mesma. Vejo isso porque olha para a sua mão, com um certo receio do que possa ver. Esta mão está calejada, cheia de feridas, e os dedos grandes e muito magros demarcam um contorno assustador. Ela fica feliz por não ter mãos de porcelana: ela é diferente, não tem medo do trabalho! Alias, ela adora trabalhar. Absorver o mundo á sua volta. Sim, ela gosta do seu trabalho: ninguém comum poderia desejar conhecer o que a rodeia, absorver cada segundo do mundo. Ela quer, e gosta de ser mais. Ou não ser. Aprender a não ser. É isso, ela quer aprender a não ser: afinal, ela é uma poetisa.
Veste-se de maneira a desafiar as regras de uma sociedade de consumo: ela não se rende a estereotipo, não, ela gosta de marcar por onde passa. Para que se lembrem que na nova geração também há poetas, e poetisas. Ela não sucumbe a olhares de lado e comentários parvos sobre o que ela é: ela e uma poetisa de intervenção.
Pousou a caneta, agarra o cachecol. De certeza que este imortaliza um cheiro ou um momento. Não, e claramente um cheiro. Um cheiro de quem ama. Ela apertão contra o nariz e contra o peito, de olhos fechados. Se fosse um cheiro de alguém que não amasse profundamente, ela não ficava assim tanto tempo, nem dava tanto valor a um pedaço de pano, meio esquecido pelo tempo. De certeza que sorri, ainda que não lhe consiga desvendar o sorriso. Sorri porque sabe de quem é o cheiro: gosta das recordações que esse cheiro, único, abraça. Mas o gato salta do sofá e assusta-a, matando assim o momento. Uma lágrima! Uma lágrima por quem ama escorre da cara. Claramente de felicidade. A lágrima é provavelmente o escudo para não esquecer o abraço, o beijo dele. E esta e a garantia de que ama: ama, e é uma poetisa.
A gatinha exigiu comida. Ela recompõe-se da nostalgia que a assolou e levanta-se, para cuidar do seu animal, que com tanto carinho mima, porque sabe que a sua gatinha também a vai amar para sempre: ela não gosta de cães, são muitos grandes e impulsivos. Se a gata está consigo, é porque quer, e isso é amor para com o dono. E a sua gatinha é elegante, tem pose. Todos os gatos são poderosos. Os gatos, se falassem, podiam ser poetas.
Ela gosta de primar pela elegância, porque ela é elegante. Mantêm as costas direitas, e o olhar sedutor, que transmite uma pose de princesa.
Apercebo-me da sua beleza, talvez incompreendida por tantos: os olhos grandes, as ancas bem delineadas, uns lábios grossos e um sorriso lindo. Exagero? Talvez. Mas eu sei da beleza que ela transporta. Sei que ela sabe que não tem o corpo perfeito, mas há muito que abandonou essa ideia, e é feliz como é, com a sua forma física que já não a preocupa. Já não. Mais não. Brinca a dizer que e gorda: ela sabe brincar: afinal, ela é uma poetisa.
Volta a deitar-se e fica a saborear o fogo. Pensa no livro que acaba de ler e diz bem algo uma frase que adora, que só aprendeu a dizer depois de o ler. “EU NUNCA CHOREI” – não e verdade, mas ela lida bem com o que sente. Agora já liga. E gosta de chorar, porque mata a ilusão que já não e humana. Grita “EU NUNCA CHOREI”. Mas escorre uma lágrima por aquela face naturalmente pálida, que lhe da um ar de anjo, toda de branco. Toda ela é um paradoxo, e gosto de o ser. Parou para se ouvir. Ela é poesia.
Ela ri, ela é forte. Ela é poderosa. Ela é sensual. Ela é tudo. Ela é mulher. Ela orgulha-se de ser mulher. Ela é uma poetisa.
Levanta-se, não sei para onde vai, a casa e grande, e ela comanda o corpo. Eu vou deitar-me no sofá. E ficar a ouvir a chuva. A noite é minha. Sou a rainha do mundo: sei sentir e sei pensar no que sinto, desmontando as emoções: mas saboreio a felicidade.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Passeios na Lua

descobri a perfeição
em ti...
aquele sol
sem quase soltar
mais alguma restia de luz
beijou-me a testa
benzendo-me.

e aquela lua que surgiu
guiada pela beleza dos anjos
transformou-se num tudo
que talvez fosse nada

sorri para aquele luar prateado
que me aconchegou...
e peguei na tua mao
que me fez abrir umas asas
(quase mortas pelo tempo)

senti a pedra fria
o gelido sopro da felicidade.
as costas nuas
no granito forte!

teus braços poderosos
seguravam meu corpo
meio desfalecido,
banhado por beijos...
infinitos...

senti que era azul!
fundiste-te em mim
e apoderaste-te de uma alma
que ja era tua

salto pelo universo
sem alma.
pasesseio num tempo
mais ou menos passado
mais ou menos presente
mais ou menos futuro...

Ursula Bórgia

Lembrança de Existencia

Alguém que não nasceu: sem lembrança de existência. Sou e não fui, Vivi a alegria de ser e a tristeza de não existir. Brinquei num passado mais ou menos presente e dilui um futuro mais ou menos passado. Existo num ponto de um paralelo de uma alma de pedra. Irei ser quilo que não era. Lutei por um sorriso do mundo que nunca veio e essa batalha de uma vida abriu chagas no meu coração e fez com que ele lateja-se trevas, transformando em espírito livre em pedra, já pobre, num existir fictício.
Sou a quimera do sonho que alguém se atreveu a rasgar e fui amor daquele que não consegue amar. Fui tudo e nunca existi.
Um sorriso brando relembra a um universo já esquecido que me atrevi a pensar que existia, e serenatas de vingança entoaram declamadas pela lua a minha janela, ditando o destino daquela que não existia. A minha pele e queimada por rezas que chovem no meu corpo de pedra e o olhar triunfante dos deuses trespassa o meu corpo e eu fundo-me em mim mesma. A força que arde nos meus olhos obriga-me a ser aquela que não consigo ser suportando uma intrépida existência que não existe.
O exercito do sol congela aquele tempo perdido num espaço para que a memoria do sentimento de alguém que não existe se grave no céu e se perca nu infinito, descansando nas profundezas dos altares dos demónios.
Existo sem existir e choro pelo que existo. Odeio a existência que não existe conquistada pelos anjos que não voam.
Uma lágrima de sangue e derramada por quem existe sem existir. E um grito de dor liberta-me da prisão da existência.


Ursula Bórgia

Solidão

Levanta-te!


Deixaste que um berço
De escuridão te embala-se,
E esqueceste-te
De como se levanta
Nas tuas veias correm trevas
Pois perdeste a vontade
De combater

Dizes que vives
(orgulhosamente)
Num mundo a parte
Numa realidade paralela
Que não esta.

Mas deixaste de te lembrar
Como travas a orbita
Das tuas próprias luas
E passaste a deambular
(mesmo sem querer)
Em labirintos de silencio.

És o meu lobo solitário.
Fechaste naquilo que és
(no que podias vir a ser ate)
E desenhaste
Um escudo
Que me proíbe
De chegar a ti.

Finges esquemas
De felicidade.
Agarraste a uma quimera
Já extinta
De pensares que
Já não sabes sonhar.

Agora
Meu lobo
Esta na hora de te levantares
Reaprender a gritar
A ser forte
E sair do fundo
De um poço
De obscuridade.

Grita!
Berra!
Diz ao mundo o que és!
Para de ser lobo
E se serpente!
Serpenteia entre a realidade!
Que assim aprendes a ser feliz!

Anda!
Eu sou a tua estrela.
Agarra a minha mão!
Segue-me!
Da voz ao híbrido
Que és!
Aprende a amar!
Sente os cheiros do mundo!
Algema a alegria!
E vive…

Ursula Bórgia

Censura

Á liberdade de expressão, aos ditadores e aos artistas


Viver aprisionado…
Em nos…
Num mundo que afinal
Será mundo?

A censura
Pelos mal amados
Destrói o artista
Destrói o luar
Rouba beleza aos pormenores!

Grito por indignação
Grito pela diferença!
Grito por tudo aquilo
Que afinal,
Perco a oportunidade de ser

Explodir a um universo
De artistas aprisionados!
Desfazer em mil bocados
Estereótipos inacabados
De uma sociedade de consumo!

Óh, supressão imperfeita
Ter que guardar
As palavras
E as artes
Que embelezam o cinzento
Das cidades perdidas

Fantasmas do passado
Oh, há tanto perdidos!
Abri os cofres
E os corações
Para ouvir palavras puras
Guardadas á demasiado tempo
Na escuridão do silencio

Lutar pela diferença!
Ser alguém, ser a expressão!
Um poema á liberdade
A ditadura
A repressão
Mas sobretudo

Uma homenagem aos ARTISTAS SENSURADOS


Ursula Bórgia

Levante-se a geração

Que se levantem os incógnitos
E que gritem os esquecidos
Deixem-se de palavras doces
E sorriam aos destemidos!

E liberdade que conquistamos
Está perdida, sem expressão!
Sejam mais, sejam alguém
Sejam poetas de intervenção!

Mudem a arte!
Rascunhem o que a vós não pertence
Roubem a velha literatura!
Lutem ao grito do canhão!

E amem o progresso!
Amem a dança e a pintura!
Deixem-se de dores e de desgostos!
Encham-se de coragem e bravura
Aprendam a ser quem são!

Chega! Chega de amor!
De sonetos untadinhos!
Chega de noites e de estrelas
E que comece a revolução!

Lembre-se da Geração de Orpheu
Recordem a sua destreza!
Reparem a elegância que destruíram!
Sejam poetas de intervenção!

Chegaram os soldados
Que iram escrever os nomes na história
Poetas, artista, músicos, dançarinas
Sorriam para o céu que se abre
Qeremos nos os destemidos
Que lutam ao grito do canhão!

Que se levante a geração!

Ursula Bórgia